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Bonum est diffusivum sui

A evolução circular da social-democracia europeia

Depois de abandonar o marxismo e reconciliar-se com o mercado, a social-democracia tentou uma aproximação com o liberalismo, o que deu a ela um novo vigor, porém acabou causando uma crise de identidade. A pandemia, ao colocar em primeiro plano as necessidades coletivas, ofereceu-lhe uma oportunidade de se reconectar com as suas origens. No entanto, a adoção dos postulados pós-modernos mudou profundamente a esquerda.

Salvador Bernal

A alternância no poder, sinal de maturidade democrática, não está isenta de incoerências: para conseguir manter o poder, os líderes corrigem suas linhas políticas e se adaptam ao sabor das opiniões dominantes. Em certa medida, isso explica a evolução do socialismo na Europa e, em alguma medida, do Partido Democrata americano.

Renúncia ao marxismo e novas vias

Na segunda metade do século XX, pode-se destacar como marco especialmente significativo a renúncia ao marxismo no congresso do Partido Social Democrata (SPD) na Alemanha, em Bad Godesberg, em 1959. A decisão provou-se acertada nos anos seguintes também na Espanha e na Itália.

Produziu-se, depois, ao final do milênio, outra grande evolução, desde uma terceira via, que aceitava a economia de mercado e se distanciava das posturas clássicas das organizações sindicais (inclusive o trabalhismo britânico, em sua origem, o braço político das chamadas trade unions). Assumiria, progressivamente, como sinal de identidade, as reivindicações das minorias, especialmente aquelas derivadas dos direitos das mulheres, de gênero, da imigração e do ambientalismo.

No entanto, o avanço da globalização, de um desenvolvimento econômico impulsionado, em grande medida, pelas políticas neoliberais, levou a Internacional Socialista, no Congresso de Paris, em 1999, a retomar a confrontação social. O anfitrião, Lionel Jospin, convidava a “pensar o capitalismo para reformá-lo”. Porém, a Internacional Socialista advertia, enfaticamente, o grande risco que suporia deixar o futuro nas mãos do “individualismo desagregador” ou do “fundamentalismo neoliberal”.

Radicais e moderados

Apenas seis meses depois, reuniram-se em Berlim catorze chefes de Estado e de governo convocados pelo chanceler Gerhard Schröder, para elaborar um projeto político para o novo século. A “terceira via” seria substituída por um “novo caminho de progresso”. A ausência de Tony Blair foi mais que simbólica: no fundo, se tratava de conter o predomínio da economia de mercado.

“Na dialética entre igualdade e liberdade, a social-democracia fechou o círculo propondo paridade nos fins com moderação nos meios”

Nesse contexto, o socialismo francês se radicalizou: por exemplo, face à revisão quinquenal das leis de bioética, o Partido Socialista (PS) difundiu um panfleto em que, praticamente, buscava dinamitar tudo, até uma adaptação acrítica das técnicas biológicas e médicas. No entanto, o tiro saiu pela culatra. A França não saiu de sua crise de consciência no primeiro turno das eleições presidenciais de 2002 ante o triunfo nas urnas de Jean-Marie Le Pen, líder da Frente Nacional.

Em contrapartida, em setembro desse ano, os cidadãos da Suécia renovaram sua confiança no líder social-democrata Göra Persson, pensando mais na prevalência do Estado de bem-estar social do que em uma política eminentemente socialista. Parecia prevalecer o pragmatismo sobre a ideologia. Com isso, apontava a manutenção do poder mediante governos de minoria ou de coalizão com outros partidos (esquerda ou centro), juntamente com os verdes.

Algo semelhante sucedia na Alemanha, também influenciada pelo aumento da abstenção eleitoral: a igualdade entre socialdemocratas e democratas cristãos permanecia dirimida pela ascensão dos verdes, menos românticos e mais dispostos à construção do modelo de Estado almejado. Logo, começaria a falar de políticas “vermelhas-verdes” e de “ecossocialismo”. Porém, os partidos verdes não se dissolveram; ao contrário, continuaram crescendo, principalmente em comícios regionais e municipais.

Divisões por conta da guerra do Iraque

A Guerra do Iraque provocou sérias discrepâncias. Em um paradoxo histórico, o apoio aos EUA, que abriu caminho para o socialista José Luis Rodrigues Zapatero no governo da Espanha, impediu que Tony Blair e Gordon Brown continuassem a ter sucesso com a terceira via do trabalhismo britânico. O conselho da Internacional Socialista, reunido em Madri, em 2004, não pode obter consenso em relação aos conflitos no Oriente e, não apenas pela postura radical e interessada do partido curdo, que reprovava o Ocidente em ter demorado para retirar o ditador Saddam Hussein do poder. De certo modo, um fenômeno histórico, a quebra da unidade trabalhista, especialmente retirada do contexto da Primeira Guerra Mundial, voltava a reproduzir em outros termos a reunião da Internacional Socialista em Madri.

De outra parte, na dialética entre a igualdade e a liberdade, a socialdemocracia havia fechado o círculo acentuando os critérios de solidariedade: paridade nos fins com moderação nos meios. Embora, ao começar o milênio, os partidos socialistas europeus alinharam-se, claramente, a favor do individualismo, em suas propostas políticas ou em propostas em matéria de família, sociedade e costumes.

Da crise econômica ao ecologismo

Os problemas de identidade se aprofundaram face à necessidade de dar resposta à crise econômica que começou em 2008. Muitos esperavam que, em meio a queda da economia mundial, o socialismo levantaria a cabeça. No entanto, se advertiu da desconfiança nas velhas soluções de mais estado, mais assistência social e mais regulações, também em escala internacional. Não pareciam servir as receitas igualitárias em uma sociedade cada vez mais individualista e segura de si. Na falta de um modelo alternativo, prosperou a convivência liberal, a radicalização dos temas de sociedade e a aposta no meio ambiente.

Apostou-se no rigor fiscal econômico, especialmente na Alemanha e no Norte: as políticas reais apenas se distinguiam daquelas aplicadas em outros países por conservadores. Porém, a famosa Agenda 2000 de Schröder recebia um duro castigo eleitoral em 2009, em parte pela força do Die Linke (extrema esquerda alemã): a união dos dissidentes radicais com os comunistas.

Logo, a chanceler Angela Merkel teria que aceitar a grande coalizão com o SPD que duraria enquanto ela presidiu a democracia cristã alemã. O SPD rompeu a aliança antes das eleições de 2017, porém não obteve os resultados que esperava: seu triunfo minoritário quatro anos depois confirmaria que a causa de seu declínio não era o pacto com a CDU (democracia cristã), mais sim a sua própria crise de identidade.

“Os partidos socialistas tentam colocar-se como líderes das reivindicações mais radicais”

De certo modo, o SPD está seguindo, hoje, a estrela da socialdemocracia nórdica, que volta a ser, em grande medida, o que era e recuperou o poder, ainda que em minoria ou em coalizão. Ele não compactua com a direita, mas assume critérios restritivos de imigração, com o caso prévio da Dinamarca.

Nas nações escandinavas, três grandes períodos de poder da social-democracia mantiveram a supremacia por pouco ou deixaram espaço para a formação de conservadores. Mais recentemente, voltaram ao governo, em minoria ou em coalizão com partidos centristas ou ecologistas: não chegaram aos 30% de votos em nenhum dos quatro países (de 28,3% na Suécia até 17,7% na Finlândia).

Chegou-se a dizer que a enfermidade senil do individualismo selvagem estava travando as raízes das sociais-democracias europeias. Pois, por melhor que seja essa premissa quase absoluta do indivíduo sobre o institucional, é um traço da cultura pós-moderna. E se projeta sobre todas as formações políticas atuais.

Daí que também prevaleçam a imagem dos líderes sobre os programas, acentuada nas redes sociais, que exacerbam os debates sobre o feminismo, ambientalismo, racismo, xenofobia e bioética. Os partidos socialistas tentam colocar-se como líderes das reivindicações dos mais radicais.

As dificuldades demográficas do Estado de bem-estar social

A pandemia que não acaba mostrou a necessidade de soluções coletivas para os problemas de todos. Nesse contexto, cabia esperar um ressurgimento dos partidos de mais solidariedade e contrários às desregulamentações. Ao menos as sociais-democracias têm conseguido, nos últimos meses, vitórias em alguns países (Noruega, Alemanha e Portugal), ainda que tais resultados se expliquem também por circunstâncias nacionais específicas e não se possa esperar isso na França, onde o PS (Partido Socialista) não dá mostras de se reorganizar.

Em todo caso, se a social-democracia se aproxima novamente de suas origens, ela se encontrará, agora, com um Estado de bem-estar social em cujo futuro gravitam as consequências do inverno demográfico, apenas compensado em alguns aspectos pela imigração. Isso afeta, muito particularmente, a duração da vida de trabalho ativa e a sustentação do atual regime de pensões.

São grandes as incógnitas e os cidadãos esperam dos políticos vias de solução. Como escrevia, ironicamente, Nicolas Truong para o Le Monde: para mudar o mundo, a esquerda deve mudar de mundo, isto é, atender as necessidades reais, não teóricas, dos cidadãos da sociedade atual; e deve fazê-lo ao menos para não se distanciar de seus eleitores tradicionais.


Salvador Bernal foi presidente e editor do periódico ACE Prensa, fundado em 1969.

ACEPrensa, todos os direitos reservados.

Publicado com permissão. Link original: La evolucion circular de la socialdemocracia europea

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One comment

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