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Bonum est diffusivum sui

A vontade esclarecida como fonte de superação

Num momento disruptivo como o que vivemos hoje em que tantos empreendimentos novos e tradicionais simplesmente desaparecem e dão lugar a outros, é importante distinguir o permanente do transitório para que possamos escolher o essencial antes que o acessório.

Sabemos que a má gestão ou a falta dela é responsável por parcela considerável do fracasso de muitos projetos e instituições, e, no entanto, continuamos a insistir nos mesmos erros sem nos dar conta do desperdício de recursos, de tempo e até de vidas.

Não faltam meios ou informações para dispor de eficientes técnicas de gestão, são inúmeras as instituições que se dispõem a ajudar neste aprendizado disponibilizando o conhecimento em diversos níveis. Se há disponibilidade de recursos e reconhecimento da necessidade em empregá-los, podemos concluir que há um motivo mais profundo que precede esta questão.

Se formos à raiz do problema para encontrar a verdadeira causa veremos que tanto o sucesso como o fracasso de um empreendimento ou projeto não dependem só da vontade de quem empreende ou dos recursos de que dispõe, há uma questão que deve preceder toda boa iniciativa: a do bem desejado.

Se analisarmos a tradicional matriz econômica com seus fatores de produção de mão de obra, recursos naturais, capital e tecnologia, veremos que não basta tê-los a disposição para que o resultado aconteça, é preciso conhecer o valor e o significado de cada um deles para que possamos empregá-los em harmonia e deles obter o melhor resultado.

Numa análise preliminar o equívoco começa pelo emprego daquilo que é meio como se fosse fim, passa pela submissão de um fator ao outro segundo a relação de poder, e culmina ao considerá-los de forma estanque e segmentada num ambiente conflituoso de competição e até de oposição.

É próprio da natureza do ser humano pensar, criar e sonhar com elevados ideais. Vemos isso de forma evidente no brincar de uma criança, de como ela se envolve e se diverte com aquilo que não vem pronto e exige o uso de sua imaginação estimulando a sua criatividade e a sua concentração.

Nada agrada mais a ela do que interagir em suas brincadeiras com as pessoas que ela mais estima, especialmente com seus pais e amigos. Por isso os jogos fazem tanto sucesso entre elas, pois além de representarem um desafio estimulante às suas faculdades, também lhes permite a integração com outras pessoas, pois esta enriquece em muito a sua capacidade de relacionamento, elo fundamental do aprendizado.

Lamentavelmente quando vamos à escola formal, todos estes valores se perdem e somos submetidos aos modelos cartesianos que procuram enquadrar o saber, exigindo quase que exclusivamente a faculdade da memória e do raciocínio lógico em detrimento da imaginação, da percepção e, sobretudo, da integração com os demais.

São modelos preparados para enquadrar o saber com o objetivo único da aprovação, estimulando mais a competição do que a interação. Este modelo é amplificado no estudo por ocasião do vestibular e ao longo de toda carreira acadêmica, estendendo-se para as relações de trabalho e alcançando até mesmo as relações sociais e familiares.

O foco na competição estimula mais a construção de muros do que de pontes, tirando das pessoas um atributo fundamental para o seu desenvolvimento integral, tornando inseguras as pessoas e instáveis as instituições.

O ser humano tem dentro de si um mecanismo fabuloso feito para criar e inovar que precisa ser estimulado não só pela curiosidade natural, mas pelo esforço em adquirir bons hábitos e práticas edificantes que levem a criança desde cedo a reconhecer e valorizar aqueles que são os nossos mais elevados valores como o da convivência social, o cultivo da verdade e o apreço pelo conhecimento entre outros.

O modelo mecanicista baseado na metodologia cientifica é formidável para a eficiência técnica, mas é bastante ineficiente e pode até ser prejudicial quando se trata de lidar com pessoas. É um modelo desenvolvido para máquinas e processos que se mostra inadequado para tratar de seres vivos, especialmente quando estes são movidos pela inteligência, vontade e afetos.

O foco no sucesso mais do que na felicidade ao invés de formar as pessoas está formatando os indivíduos, pasteurizando a nossa sociedade que sem perceber o que se passa, se faz manipulável ao agir de forma mimética e reativa. Em seu estudo sobre a vontade debilitada, o psiquiatra espanhol Isaac Riera aponta que este mimetismo é responsável pela perda de autonomia das pessoas, que na ânsia de serem livres e sem a devida formação, acabam vítimas dos seus próprios mecanismos de desejo:

Se tivéssemos que escolher entre as características que mais definem a nossa sociedade, provavelmente assinalaríamos a enorme massificação dos comportamentos e dos hábitos. O homem de hoje tem, por assim dizer, uma “personalidade mimética”, que tende a configurar-se em imitação do que se impõe no ambiente. Deixa de ser ele mesmo e adota por completo o tipo de personalidade que lhe proporcionam as pautas culturais e, em consequência, transforma-se em um ser exatamente igual a todo mundo e tal como os demais esperam que ele seja.

Esta perda de identidade como fruto deste mimetismo acaba anulando aquilo que de mais precioso temos em nossa existência: a busca pelo sentido de melhoria e superação enquanto ser. Anulamos os sonhos e fantasias de nossas crianças, formatamos a personalidade de nossos jovens, e por fim nos enquadramos como adultos que apenas cumprem com seus deveres ordinários sem nada contribuir para a edificação do próprio ser e da sociedade onde vivemos.

Se a qualidade de nossas ações é função direta da qualidade de nossas escolhas e propósitos, quanto mais rebaixados forem os nossos ideais, mais pálidas e frágeis serão as nossas obras, e por consequência, o nosso legado.

A tristeza e frustração de vida experimentada por tantas pessoas hoje, decorre sem dúvidas deste auto rebaixamento existencial que se limita ao realizável, ao mediano e ao comum. Há por trás desta fuga do que é elevado, uma espécie de irresponsabilidade que, segundo Riera, acarreta uma debilitação da vontade:

Com a perda da autonomia decorre, por consequência lógica, a falta de responsabilidade, um fenômeno muito característico de nossa época. É bem sabido que, hoje em dia, todo o mundo reivindica direitos, mas quase ninguém quer assumir obrigações: o sentido do dever desapareceu. Somos muito ágeis para exigir dos demais, mas sumamente remissos em exigir-nos. Isto indica, uma vez mais, o debilitamento da vontade no homem moderno. Porque, entre todas as faculdades do homem, é unicamente a vontade a que tem força e firmeza para submeter nossos atos aos imperativos do ideal, a que nos faz superar as tendências do egoísmo e a que é capaz de assumir os sacrifícios que a obrigação requer.

A vontade é uma das nossas mais elevadas faculdades, que uma vez esclarecida pela razão pode nos levar a fazer as melhores escolhas. Secundada pela virtude da prudência, distingue a melhor forma de alcançar o fim desejado empregando os meios adequados que favorecem a boa ação. Isto não significa que estaremos dispensados do esforço e do sacrifício que toda ação meritória requer, o que faz é facilitar este esforço na medida em que nos dá consciência do que fazemos e porque fazemos.

O que são os desejos e impulsos para a sensibilidade, é a vontade para a vida intelectual ao nos inclinar de forma racional para o bem segundo aquilo que nos convém. Segundo Ricardo Yepes, a vontade não atua à margem da razão, mas simultaneamente com ela: deseja-se o que se conhece, se conhece a fundo aquilo que se deseja. Amor e conhecimento se relacionam estreitamente.”

Tanto Yepes como Riera concordam que o fato de ter vontade implica numa responsabilidade pessoal, pois como seres racionais que têm a capacidade de distinguir e querer o bem, devem fazê-lo sob pena de se escravizarem aos próprios sentidos e circunstâncias. Se a nossa condição humana nos limita àquilo que é propriamente humano, também nos eleva àquilo que está para além de nossa natureza. Como bem disse Luiz Carreto Clavo: “A grandeza do homem é definida por duas coisas: Ter a capacidade de se saber limitado e reconhecer que precisa dos demais, e sonhar em ser ilimitado e ter a possibilidade de melhorar o tempo e o espaço que lhe couberam habitar”.


REFERÊNCIAS:

Javier Aranguren Echevarría e Ricardo Yepes Stork. Fundamentos de Antropologia, Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lulio.

Isaac Riera Fernandez. A vontade debilitada <https://www.aceprensa.com/sociedad/la-voluntad-debilitada/>

Luiz Carreto Clavo. Aristóteles para executivos, Editora Globo.

Paulo Lucas

Economista, especialista em Estratégia Econômica de Empresas pela FAE e em Desenvolvimento Pessoal pela Univesidad de La Sabana.

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