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Bonum est diffusivum sui

Como ir mais longe na vida intelectual

Com esse texto, pretendo trazer uma reflexão sobre o quão longe qualquer pessoa pode ir no estudo. Não falo em ir longe no sentido de ter muito conteúdo, de ser um sabichão. Aqui, parto da compreensão de que o cerne  da educação é a busca da sabedoria. Pretendo mostrar que a sabedoria é acessível à nossa natureza e é uma das virtudes intelectuais que precisa ser exercitada.

Para isso, é preciso falar um pouco sobre Hugo de São Vitor. Monge do mosteiro de São Vitor, Hugo foi discípulo de uma tradição que se voltava para a escuta atenta do evangelho, a memorização do que foi ouvido e a meditação e explicação posterior do assunto. Essa era a prática comum naquele mosteiro e o seu objetivo era sempre a busca da sabedoria.

Creio, contudo, que o que Hugo apresenta em seu opúsculo é aplicável a todas as realidades de estudo. 

Porém, antes de começar a tratar da sua doutrina propriamente dita, precisarei apresentar algumas noções preliminares que não serão discutidas no texto. Ao longo do opúsculo, vemos a referência à ciência como tudo aquilo que é explicação das causas de um movimento. Ele não está se referindo nem ao método científico, nem à mera opinião. Vemos também a explicação daquilo que é a leitura. Algo pouco dito, mas de grande importância, é que a leitura pode se dar também de maneira ativa, pelo ouvido, quando algo é lido por outrem. Por fim, termino esta introdução dizendo que a educação é sempre uma atividade do estudante, ela nunca é passiva. Vamos ao opúsculo em si.

A primeira coisa que é destacada por Hugo é a virtude da humildade:

A primeira [condição] é que não tenha como vil nenhuma ciência e nenhuma escritura.

A segunda é que não se envergonhe de aprender de ninguém.

A terceira é que, quando tiver alcançado a ciência, não despreze aos demais.”

Como dito acima, a ciência é a verdade que explica alguma coisa e a escritura é qualquer texto das Sagradas Escrituras. Como adaptar esse dizer para os estudos cotidianos? Muitos já se depararam com a situação de conversar com uma pessoa simplória e sem instrução e tirar de suas palavras alguns ensinamentos profundos. Isso é a mesma coisa que Hugo ensina na primeira e na segunda orientação sobre a humildade do estudante.

Quando aprendemos de uma pessoa simples percebemos dentro de nós uma clareza de consciência e até mesmo uma paz. Esses dois efeitos ocorrem porque (1) o que foi dito pela pessoa simples era verdade e você foi capaz de reconhecer isso e (2) você foi colocado no seu lugar real na existência, que é de um mero ser humano que deve buscar a verdade, seja ela qual for e de onde venha. Esses são alguns dos efeitos da humildade.

Para completar, a terceira orientação é que não se despreze os demais, pois uma verdadeira virtude não tem como fruto uma ação má. Logo, aquele que despreza o seu semelhante após adquirir um conhecimento se assemelha ao Diabo e se afasta da Sabedoria.

Em seguida, vemos como Hugo sabe do que fala ao nos dar esta orientação:

O bom estudante deve ser humilde e manso, inteiramente alheio aos cuidados do mundo e às tentações dos prazeres, e solícito em aprender de boa vontade de todos. Nunca presuma de sua ciência; não queira parecer douto, mas sê-lo; busque os ditos dos sábios, e procure ardentemente ter sempre os seus vultos diante dos olhos da mente, como um espelho.”

Vamos por partes: 

  1. deve ser humilde e manso”: humilde, pelo que foi dito antes que é expresso na frase “Deus resiste aos soberbos”. Manso, porque a mansidão é aquela virtude que modera a vingança. Nesse ponto, podemos dizer que ela é importante porque a disposição após o pecado original do homem é de se revoltar diante de Deus e da Verdade. Sendo assim, o conhecimento é um empecilho à revolta do homem decaído contra Deus.
    Logo, é preciso exercitar a mansidão à medida que se estuda, pois, quando buscamos a sabedoria, nos colocamos no lugar de criatura e, portanto, aceitamos o fato de que não somos deuses. E essa constatação nos causa revolta e desejo de vingança. É, muitas vezes, a falta de humildade e mansidão que faz que nos afastemos da vida de estudo,do mesmo modo que os discípulos no capítulo 6 de São João, os quais, após dizerem “essas palavras são muito duras”, decidiram desistir de seguir a Cristo.
  2. inteiramente alheio aos cuidados do mundo”: isto significa que o interesse pelas criações artificiais e mutáveis devem ser aquietadas. O que quero dizer com isso? Que o homem, para fugir de Deus, cria vários estímulos sensoriais, ocasiões frívolas e preocupações fúteis que ocupam seu imaginário e que o afastam da serenidade exigida ao estudante. Se quisermos alcançar as profundezas do estudo, será preciso dar pouca importância àquilo que é passageiro.
  3. Não queira parecer douto, mas sê-lo”. Que grande ensinamento! Quantos são os que buscam falar daquilo que leem pelo simples desejo, às vezes inconsciente, de se colocar no meio dos sábios. Não deve ser essa a disposição do estudante, mas de apenas conhecer a verdade.
  4. Por fim, “ter sempre os seus vultos diante dos olhos da mente” faz referência ao livro de Deuteronômio 11, 18, pois é um símbolo da meditação. Os vultos são as silhuetas do conhecimento ainda não esclarecido. É semelhante àquela intuição de que há algo de verdadeiro em uma frase ou argumento, mas não se sabe o que é. E o olhos da mente são, justamente, a inteligência.

Em seguida, Hugo explica o que o estudante deve fazer para alcançar a sabedoria:

Na natureza, que facilmente perceba o que foi ouvido e firmemente retenha o percebido. No exercício, que cultive o senso natural pelo trabalho e diligência. Na disciplina, que vivendo louvavelmente, componha os costumes com a ciência.

O que ele afirma de forma sucinta está, geralmente, em falta nos nossos estudos. Por exemplo, hoje, quem facilmente percebe o que foi dito e consegue reter as palavras? Aqueles que frequentam a missa vão se identificar com minha pergunta. Você consegue ouvir o responsório do salmo e repeti-lo corretamente em seguida? Nos tempos de Instagram e de poluição sonora nas ruas, é difícil dedicarmos a atenção necessária ao que é dito e, principalmente, fazer com que isso permaneça em nossa imaginação por um período suficiente ao ponto de podermos ter memorizado as palavras.

Superando a deficiência na atenção, temos que o exercício é composto pelo senso natural unido ao trabalho e à diligência. Ou seja, a percepção de que é uma busca ativa de estudo constante, que deve ser feito com as melhores das disposições interiores.

Por fim, e talvez o mais importante, que se “componha os costumes com a ciência”, que significa dizer que aquilo que foi descoberto seja integrado ao seu modo de vida. Um dos grandes males dos professores de hoje está relacionado justamente com esse dizer de Hugo. Os professores de hoje em dia precisam seguir um currículo cujo conteúdo não está devidamente meditado e incorporado à sua vida, o que redunda em falta de autoridade por parte deles. Esse ponto é tão importante que já foi comentado em outro artigo aqui.

Tendo passado pela descrição das ações que o estudante deve realizar, Hugo explica agora os instrumentos usados pela inteligência para alcançar a verdade. São eles: o engenho e a memória:

O engenho é um certo vigor naturalmente existente na alma, importante em si mesmo. […] O engenho provém da natureza, é auxiliado pelo uso, é embotado pelo trabalho imoderado e aguçado pelo exercício moderado.

Perceba que o engenho é um instrumento natural, uma disposição anímica. É como uma propensão natural à busca pelo conhecimento, mas que precisa ser direcionada para o conteúdo frutuoso e usada com moderação. Talvez seja difícil ao estudante moderno perceber o equilíbrio. Muitas vezes, os universitários, tendo se omitido de seu dever, procuram compensar tal falta com um estudo intensivo antes de provas. De nada adianta, para a busca da sabedoria, esse tipo de estudo.

Sobre a memória:

A memória é a firmíssima percepção das coisas, das palavras, das sentenças e dos significados por parte da alma ou da mente. […] A memória é principalmente ajudada e fortificada pelo exercício de reter e de meditar assiduamente.

Detalhe para o adjetivo “firmíssima”. É aquela percepção que não se esvai com o tempo. E o que é próprio de permanecer na memória? As coisas, palavras, sentenças e significados. Perceba-se que ele está progredindo de objetos sensíveis ao conceito das coisas, pois Hugo está falando do processo pelo qual vamos das coisas particulares, sensíveis, às universais, ou seja, significados/conceitos.¹ Assim, é preciso exercitar a memória trazendo sempre aos olhos aquele aspecto que pode conter uma verdade e, assim, meditar sobre ele.

Como frase sintetizadora própria para a memorização, temos:

O que o engenho encontra, a memória custodia.”

Tendo exposto a importância do engenho e da memória, Hugo assinala o centro da sua tese educacional: a meditação é necessária à contemplação.

A meditação é uma cogitação frequente com conselho, que investiga prudentemente a causa e a origem, o modo e a utilidade de cada coisa

Sendo esse o centro da exposição, precisamos ter calma na explicação. Vamos por partes. Ela “é uma cogitação frequente com conselho”. O que significa isso? “Cogitação frequente” aqui está se referindo ao constante questionamento sobre o objeto. Tendo diante dos olhos pela memória o objeto, é preciso esquadrinhá-lo, olhá-lo de diversos ângulos, para que se compreenda as várias formas e níveis de interpretação possíveis, não necessariamente o que é verdadeiro.

Já o conselho é o que dá às opiniões que são frutos dos questionamentos seu julgamento daquilo que é ou não verdadeiro. Esse conselho é importante pois ele pode ser um conselho natural, isto é, fruto da razão natural, ou pode ser espiritual, fruto do dom do Espírito Santo. Aquele que não está em estado de graça, segundo a doutrina católica, não é capaz de ter o conselho do Espírito Santo e, portanto, o fruto dessa meditação não possui o efeito transformador da caridade.

Em seguida, nessa mesma frase, Hugo explica o que é que se deve procurar durante os atos de meditação. Prudentemente, isto é, sem se desviar do objetivo que é alcançar a verdade, deve-se procurar a causa e a origem. Normalmente, usamos causa e origem como sinônimos. Como ele, então, distingue os dois? A causa é o que confere forma ao objeto. Significa dizer o que é o objeto. Já a origem, é o que causou a mudança naquele objeto.

Em seguida, temos o modo e a utilidade. O modo se refere às condições de existência daquele objeto. Como o objeto, tendo certa essência, se relaciona com os outros elementos da realidade? Já a utilidade se refere ao objetivo daquele objeto ou sentença. Para que o objeto daquela meditação serve? Qual a sua finalidade?

Nos encaminhando ao fim dessa meditação, é preciso dizer algo sobre o fruto dessa meditação e sobre por que este artigo proporciona ao leitor uma possibilidade de aprofundamento da vida intelectual.

Quando o objetivo do estudo é alcançar a verdade, a meditação se torna o instrumento essencial ao estudante, pois o possibilita sair das meras opiniões em direção ao conhecimento de uma verdade integrada na grande trama da realidade.

Por isso, Hugo de São Vitor nos ensina que:

Três são as visões da alma racional: o pensamento, a meditação e a contemplação.

As visões diferentes são os níveis de profundidade que o estudante pode alcançar no seu estudo. O pensamento é aquela discussão inicial que fazemos em nossas mentes quando lemos um texto. Enquanto lemos um texto, vamos compondo os argumentos em nossa cabeça. Esses argumentos formam um pensamento em nós que nos comunica a argumentação do autor e, portanto, uma visão inicial e parcial da verdade ali contida.

Apenas quando praticamos a meditação é que nossa inteligência, por si, busca a verdade segundo ela mesma. É somente nesse momento que conseguimos ter uma maior certeza de se o argumento que antes estava apenas no nível do pensamento, é integralmente, parcialmente ou de modo algum verdadeiro.

O fruto dessa meditação é a contemplação da verdade. Tendo discernido, por meio da divisão e da síntese, o que há de verdadeiro no argumento, podemos agora compor essas verdades com todas as outras previamente adquiridas.

O resultado desse estudo é o deleite da própria verdade, isto é, da realização da sua própria natureza e de que as verdades anteriormente adquiridas se encaixam muito bem naquela nova verdade conhecida. Quando, por outro lado, fica a percepção de que duas coisas parecem verdadeiras, mas ainda não se compreende muito bem o que as une, abre-se um novo horizonte de pesquisa ao estudante.

Com isso, encerro esse comentário ao maravilhoso opúsculo sobre o modo de aprender e meditar de Hugo de São Vitor fazendo o convite a sua própria leitura e meditação. O hábil mestre Hugo foi capaz de escrever de modo a que o leitor passe a aplicar sobre o próprio “manual” o método apresentado.


[1] Uma breve nota sobre a imaginação: A imaginação é a percepção das formas sensoriais de um objeto externo, isto é, real. Enquanto o objeto está em contato com a pessoa, os sentidos estão ativos e captam as formas daquele objeto. A imaginação é capaz de apreender essas formas sem a rigidez da realidade. É por isso que, nos sonhos, muitos objetos aparecem distorcidos. Sendo assim, essas formas são apresentadas à inteligência pela imaginação. Quando nossa imaginação é dispersa, a inteligência não tem tempo para captar a essência daquele objeto e, portanto, não o conhecemos bem. Do mesmo modo, se não revivemos constantemente aquela imagem em nossa imaginação, não conseguimos fixar bem essa imagem. Justamente esse exercício de reviver constantemente as formas desses objetos é que constitui a memória, tal como referida por Hugo.
[2] Medite essa frase de Hugo de São Vitor: “Na meditação, de fato, nos deleitamos discorrendo como que por um espaço aberto, no qual dirigimos a vista para a verdade a ser contemplada, admirando ora esta, ora aquelas causas das coisas, ora também penetrando no que nelas há de profundo, nada deixando de duvidoso ou de obscuro.”

Filipe Dalboni

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