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Liberal na economia e conservador nos costumes - um projeto fracassado

Liberal na economia e conservador nos costumes: um projeto fracassado

Ben Sixsmith
First Things

A compreensão das convulsões pelas quais passou o conservadorismo americano requer o estudo da história, em particular, do destino de Frank Meyer, inventor da síntese da Guerra Fria que reinou por décadas como ortodoxia conservadora e somente nos últimos anos é que enfrentou sérios desafios.

Assim como muitas outras figuras da direita durante a Guerra Fria, Meyer tem um histórico comunista. Ele estudou na London School of Economics, mas foi expulso e deportado do Reino Unido em 1933, por conta de atividades subversivas, incluindo a publicação do jornal marxista Student Vanguard.

Ele ainda era comunista em 1940. Naquele ano, em um ensaio para o provável jornal do Partido Comunista dos Estados Unidos, ele saudou o “poder radiante do marxismo nas mãos de um grande mestre como Stálin”. Durante a Segunda Guerra Mundial e no que se seguiu, Meyer, contudo, repensou o que disse. Muitos comunistas deixaram as suas crenças ao conhecer os horrores da União Soviética; a conversão de Meyer foi pelo estudo comparativo. A sua leitura do livro O Caminho da Servidão de Friedrich Hayek e o livro As Ideias têm Consequências de Richard Weaver levaram-no a rejeitar o marxismo e o partido comunista em favor do individualismo do governo limitado. Virando à direita, ele contribuiu primeiro com a revista libertária The Freeman, então, para a jovem National Review e, em pouco tempo, ele fez o seu nome como um defensor do conservadorismo liberal contra as ideias do conservadorismo tradicionalista de Russell Kirk. Ele argumentou que os Estados unidos enfrentavam uma divisão política fundamental entre o “coletivismo e estatismo que se fundem gradualmente no totalitarismo” e o “individualismo: os princípios da primazia do indivíduo, da divisão de poder, da limitação do governo, a liberdade econômica”. Sua análise refletia o medo Hayekiano de que, uma vez que o Estado começa a crescer, ele se expande inexoravelmente em uma força totalitária. A ameaça da União Soviética, por volta de 1950, parecia confirmar essa tese cabalmente.

Em 1961, Meyer escreveu The Moulding of Communists, no qual explica os meios pelos quais os comunistas recrutaram e doutrinaram membros. Com base em sua própria experiência, ele descreveu como jovens americanos se inscreveram e foram colocados para trabalhar pelo Partido Comunista. O livro de Whittaker Chambers Witness foi uma meditação comovente sobre o tempo de comunista do autor. Em comparação, o livro de Meyer era frio e impessoal como um texto médico que detalha o tratamento para uma perigosa infecção. Meyer detestava suas crenças antigas. Mas, assim como o libertário Murray Rothbard observou em uma crítica perspicaz, esse ódio confundiu o julgamento de Meyer. Ele viu o comunismo como sendo estritamente diabólico e não mostrou nenhuma compreensão do fato que o dogmatismo inflexível pode se infiltrar em outros sistemas. Ao fazê-lo, Meyer revelou que, embora ele tivesse abandonado o pensamento comunista, ele não foi além das questões ideológicas.

Seu livro Em Defesa da Liberdade, publicado em 1962, desenvolveu ainda mais suas ideias individualistas. Esse livro assentou as bases do acordo pelo qual Meyer é mais conhecido: o “fusionismo”. Os contribuintes conservadores da National Review tinham divergências ferozes a respeito dos conceitos de liberdade e virtude, com os libertários de um lado e os tradicionalistas de outro. O fusionismo de Meyer aparentou conciliá-los, advogando um compromisso político com o libertarianismo e o compromisso moral com os valores tradicionais. Deve-se pregar a virtude, mas não se pode proibir o pecado.

Essa teria sido uma síntese interessante, mesmo que tenha sido concebida por puro pragmatismo, porém Mayer era mais idealista do que isso. A virtude para ele dependia de que o indivíduo tivesse a livre escolha entre o bem e o mal. “A liberdade pode existir”, escreveu ele “com um preço não menor do que o perigo de condenação”. A liberdade era a “essência do ser do homem” e, por isso, o homem “deve ser livre para escolher o seu pior e o seu melhor fim”. Do contrário, ele não é virtuoso, mas servil.

De sua plataforma na National Review, Meyer e o fusionismo estabeleceram a agenda para o conservadorismo nos Estados Unidos. “Anti-comunismo”, como escrevera Daniel McCarthy, era a “cola que unia a coalizão [conservadora]” e a liberdade era um valor poderoso para o Ocidente empunhar contra os implacáveis ditadores dos Estados comunistas. E parecia que a história havia dado razão a Mayer. Na década de 1980, com a quebra da União Soviética e a prosperidade da economia liberal, Ronald Reagan saudou Meyer como um “grande pensador” que ajudou a guiar o movimento que o colocou no poder.

O Fusionismo tornou-se o princípio organizador dos conservadores americanos porque unia a direita em torno do livre mercado e contra o comunismo

Em meio ao triunfalismo, norte-americanos astutos puderam observar que as primeiras críticas a Mayer foram justificadas. L. Brent Bozell Jr da National Review preocupou-se desde logo com o extremo individualismo de seu colega e amigo. Em 1962, em um ensaio Liberdade ou virtude?, ele argumentou que esses dois conceitos não poderiam ser facilmente alinhados como Meyer sustentava. Se os americanos iriam maximizar a virtude, por meio da maximização da liberdade, logo os freios sociais e legais deveriam ser abandonados. “A desaprovação Social”, no fim das contas, “pode ser tão persuasiva contra pichações quanto a ameaça de uma multa”.

Vamos querer tornar nossas leis de divórcio ainda mais laxas. Nós, também, vamos querer lançar uma campanha de educação pública (sustentada privadamente, é claro) cujo objetivo é acabar com os preconceitos sociais residuais e, talvez, ajudar a superar as dificuldades mecânicas; um fundo especial poderia ser reservado para avisos periódicos de jornal informando os cônjuges insatisfeitos sobre os cartórios em promoção ou das encomendas de casa por correspondência.

Bozell enquadrou esse cenário como reductio ad absurdum, mas, em retrospectiva, parece profético. Nas décadas que se seguiram ao ensaio de Bozell, o divórcio sem causa foi aprovado, Roe vs Wade foi instituído, leis contra a obscenidade foram enfraquecidas e os Estados Unidos experimentou um número sem precedentes de divórcio, pais solteiros, aborto e consumo de pornografia. Meyer escreveu sobre as “fibras da tradição e da civilização” que eram “levadas nas mentes de homens de geração em geração”, mas é claro que esperar que valores tradicionais sobrevivam a abolição das restrições legais e sociais é exagerar a força do tecido moral do povo.

Outros críticos contemporâneos de Meyer previram que um compromisso político com um individualismo rígido permitiria não apenas um declínio cultural, mas atomização social. “A sociedade de Meyer, na verdade, não é uma sociedade”, escreveu Stanley Parry na Modern Age. “É uma coletividade, ou seja, uma multidão de […] indivíduos autônomos livres”. O individualismo de Meyer foi a estratégia errada para a década de 1960, uma década de fragmentação social na qual as famílias estavam se separando, engajamento cívico estava em declínio e as comunidades estavam murchando assim como as antigas indústrias começavam a morrer. In Defense of Freedom culpou o “tédio social” que os conservadores tradicionais diagnosticaram na cultura ocidental como um “excesso de comunidade imposta pelo Estado”. Mas análises posteriores de Christopher Lasch, Robert Putnam e outros sobre os efeitos da mercantilização, tecnologia e diversidade na vida do Ocidente sugerem que Parry estava correto.

O Fusionismo tornou-se o princípio organizador dos conservadores americanos porque unia a direita em torno do livre mercado e contra o comunismo. Com o final da Guerra Fria, a ameaça comunista recuou e o fusionismo encontrou oposição em nacionalistas como Pat Buchanan. No entando, seu desafio ao establishment não deu em nada, pois uma economia próspera permitiu que liberais sociais e econômicos como Bob Dole e George W. Bush sustentassem o fusionismo e os atentados ao World Trade Center manteve os americanos unidos contra um inimigo externo.

O fracasso na Guerra do Iraque e a crise financeira de 2008 tornaram os argumentos antigos sobre a liberdade menos persuasivos. Nenhuma ameaça externa séria manteve a coalizão unida e uma economia instável fez com que a ênfase fusionista na desregulamentação do mercado fosse menos convincente. Os eleitores republicanos elegeram o protecionista reacionário Donald Trump e, com isso, levantou-se a questão: Para onde vai o conservadorismo?

Contra o velho consenso”, um manifesto sobre o novo conservadorismo, publicado pela First Things e assinado por Sohrab Ahmari, Patrick Deneen e Rod Dreher, entre outros, oferece uma direção. O conservadorismo da Guerra Fria, sustenta o documento, “frequentemente seguiu a mesma estrela-guia do liberalismo – isto é, a autonomia individual” e, por isso, se rendeu ao progressismo cultural e ao capitalismo desenfreado. “Contra o velho consenso” argumenta em prol de uma direita comunitária, por um conservadorismo mais social, que se distingue do que Dreher chama de “Reaganismo Zumbi”, o que quer dizer: fusionismo.

Uma crítica do manifesto, feita por Noah Rothman, nos Comentários da revista, diz o seguinte:

Não é o meu trabalho dizer a você como realizar seu máximo potencial e felicidade, desde que essas aspirações não infrinjam os direitos e as aspirações de outrem. Além dessas infrações, o poder público não tem nenhum papel e assumir isso é arrogância. No final deste caminho está a tirania.

Esse é o liberalismo de John Stuart Mill, refratado no conservadorismo de Frank Meyer, em um compromisso que fazia sentido na década de 1960, mas que não funciona hoje. Um Estado que encoraja o casamento, por exemplo, e que insiste que maridos e esposas precisam ter boas razões para buscar o divórcio, não precisa ser austero ou totalitário. Isso é, de fato, como os Estados Unidos governaram essas questões até a década de 1950. No hiper-mercantilizado século XXI, um Estado que falha em promover o casamento é um desgoverno.

Representando a visão do estamento burocrático, Rothman argumentou que os conservadores “desvalorizam” os feitos do fusionismo que incluem:

A criação de uma série de estruturas globais que proíbem políticas industriais e comerciais protecionistas, a revitalização das liberdades da Primeira e da Segunda Emenda da Constituição Americana, a redução dos privilégios de organizações trabalhistas, e a reforma do Estado de bem-estar social do país com o objetivo de inculcar aos beneficiários uma ética de trabalho.

Porém, esses avanços na liberalização econômica devem ser avaliados em um contexto de alta nos índices de suicídios, mortes por abusos de drogas e declínio das taxas de natalidade e formação de famílias. Os conservadores sabem que nenhuma sociedade é perfeita. Mas, há algo a ser dito sobre ver a riqueza da nação como meio para um fim – que é o florescimento dos cidadãos – e não como um fim em si mesmo.

Murray Rothbard estava certo: Meyer era um ideólogo, antes e após a sua conversão. Suas considerações sobre o fusionismo, embora pretendam-se universais, são apenas superficiais. Na verdade, a virtude é necessária para a liberdade, não a liberdade para a virtude. No ocidente do século XXI, somos atingidos por uma libertinagem medíocre tão instável quanto insatisfatória. É preciso de uma outra fusão conservadora, que priorize a conexão social em vez da atomização. 


Ben Sixsmith é um escritor na Polônia.

First Things, todos os direitos reservados. Publicado com permissão. Link original: “The Fusionism That Failed”.

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