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(POL) O conservadorismo contra si mesmo e a ilusão do self-made man

O conservadorismo contra si mesmo e a ilusão do self-made man

Por Christopher Lasch

(Continuação de: O conservadorismo contra si mesmo: capitalistas e sua vitória de Pirro)

A erosão implacável do antigo capitalismo de instituições proprietárias fornece-nos a mais clara evidência de sua incompatibilidade com qualquer coisa que mereça o nome de “conservadorismo cultural”.

Obviamente, há muito a ser dito sobre a instituição da propriedade privada desde de um ponto de vista conservador.

O usufruto de uma propriedade tradicionalmente traz consigo ensinamentos sobre as virtudes da responsabilidade, do trabalho manual e da dedicação abnegada àquelas tarefas mais humildes, porém indispensáveis.

O capitalismo do século XX, no entanto, substituiu a propriedade privada por uma forma corporativa de propriedade que não confere nenhuma dessas vantagens morais e culturais.

A transformação de artesãos, agricultores e outros pequenos proprietários em assalariados mina os “valores tradicionais” que os conservadores procuram preservar.

“conservadores Apegavam-se à ilusão de que qualquer trabalhador poderia facilmente se tornar um capitalista se estivesse determinado a ter sucesso.”

A última tentativa de salvaguardar a independência das classes produtoras, que foi o dito “salário familiar”, acabou por substituir as iniciativas muito superiores da empresa familiar e da agricultura familiar.

E não é mais uma lei subentendida do capitalismo americano que a indústria tentará manter os salários em um nível que permita que um único salário sustente uma família.

Em 1976, apenas 40% de todos os empregos pagavam o suficiente para sustentar uma família.

Essa tendência reflete, entre outras coisas, uma desqualificação radical da força de trabalho, a substituição de mão de obra qualificada por máquinas e um grande aumento no número de empregos não qualificados de baixa remuneração, muitos dos quais, é claro, são agora preenchidos pelas mulheres.

Também reflete o triunfo de uma ética consumista que encoraja os homens americanos a se definirem não como provedores e chefes de família, mas como boêmios, amantes, especialistas em sexo e estilo — em suma, playboys, para usar o termo revelador de Hugh Hefner.

A ideia de que um homem tem a obrigação de sustentar a esposa e a família é tão desagradável para os editores da Playboy quanto para as militantes feministas, que têm suas próprias razões para rejeitar os “valores familiares”.

O próprio salário familiar foi um pobre substituto para a propriedade, mesmo quando este salário, na prática, correspondeu à teoria.

No início do século XIX era quase universalmente aceito que a democracia deveria se basear na mais ampla distribuição [não-coercitiva] possível da propriedade.

Após a Guerra Civil, o surgimento de uma classe de assalariados – homens e mulheres com pouca esperança de adquirir propriedade – levantou sérias questões sobre o futuro da democracia.

“O que ELES pareciam não entender era que as leis de oferta e demanda já haviam sido revogadas por toda uma série de políticas que discriminavam em favor das grandes corporações empresariais…”

Mesmo aqueles que não tinham nada contra o capitalismo, como E. L. Godkin (editor do Nation e do New York Evening Post), admitiram a justiça da aversão do trabalhador [de então] à “escravidão assalariada”.

O recebimento de salários”, observou Godkin em 1868, “. . . é considerado pelo mundo como um emblema de dependência, de inferioridade social e moral”.

Um homem que trabalhava por salário tornou-se

um servo, no antigo sentido da palavra — uma pessoa que renunciou a uma certa parte de sua independência social”.

As objeções ao trabalho assalariado, acrescentou Godkin, eram

muito semelhantes àquelas que podem ser alegadas contra a exclusão de uma vasta parcela da população em participar nos trabalhos do governo… Até que as classes trabalhadoras tomem uma parte inteligente e ativa – isto é, participem com suas cabeças assim como suas mãos – nas operações industriais do dia, nossas condições sociais devem ser declaradas insalubres”.

Godkin, um liberal do século XIX cujos instintos sociais eram inteiramente conservadores, não vacilou, pelo menos no início, diante das implicações de sua posição. A única maneira de preservar as vantagens morais da propriedade individual sob condições modernas de produção, argumentou ele, era alguma forma de empreendimento cooperativo.

Caso contrário, “os donos do capital e os donos do trabalho tendem a formar duas classes separadas e distintas”, cada uma com sua patologia característica – um sentimento esnobe e injustificado de superioridade em um, e hábitos servis de dependência no outro.

O único erro de Godkin foi supor que a empresa cooperativa pudesse florescer sob um sistema de produção capitalista plenamente desenvolvido.

Quando os agricultores pressionados formaram cooperativas para manter suas terras e evitar afundar no arrendamento, os bancos esmagaram o seu movimento retendo o crédito.

Os fazendeiros em apuros, organizando-se como um partido populista, buscaram crédito no governo federal. E essa iniciativa também foi derrotada com a ajuda de “conservadores” como Godkin, que ficaram horrorizados com a sugestão de que o Estado poderia interferir legitimamente nas leis de oferta e demanda – o “primeiro passo para o comunismo”, na opinião deles.

O que os conservadores pareciam não entender era que as leis de oferta e demanda já haviam sido revogadas por toda uma série de políticas que discriminavam em favor das grandes corporações empresariais e em detrimento de todos os outros interesses.

“OS CONSERVADORES OBJETARAM QUE OS PROGRAMAS DE BEM-ESTAR SOCIAL PROMOVERIAM SIMPLESMENTE UM ‘SENSO DE DEPENDÊNCIA’, E ESSA CRÍTICA TINHA MUITA FORÇA.”

Com efeito, a política governamental, não apenas nos Estados Unidos, mas também em outros países em processo de industrialização, subsidiou uma única forma de cooperação — a corporação multimilionária —, enquanto desencorajava as outras.

Nem a propriedade em pequena escala nem o seu equivalente moral – a empresa cooperativa de pequenos produtores e artesãos – poderiam florescer sem o apoio de políticas estatais muito mais radicais do que qualquer coisa que os conservadores estivessem preparados para considerar.

A maioria dos conservadores, de fato, não levou a questão até onde Godkin o fez. Eles sequer admitiram a necessidade de cooperação de qualquer forma. Eles pensavam na própria corporação como se fosse um único indivíduo sob a lei.

Eles também individualizaram os trabalhadores, recusando-se a admitir a necessidade de qualquer forma de organização da classe trabalhadora.

Apegavam-se à ilusão de que o assalariamento era apenas uma condição temporária e que qualquer trabalhador poderia facilmente se tornar um capitalista se estivesse determinado a ter sucesso.

A suposição de que a propriedade ainda estava aberta a qualquer pessoa que tivesse a ambição necessária desacreditou o conservadorismo na opinião dos pensadores sérios.

Herbert Croly, editor fundador do New Republic e uma espécie de socialista de guilda, resumiu toda a questão da propriedade com muita clareza em 1914, ao mesmo tempo em que explicou o que havia de errado com a resposta conservadora.

Em uma América que ficou no passado, aqueles que Croly chamava de

pioneiros ou democratas territoriais, tinham todas as promessas de obter independência econômica no final da vida, pois se faziam possuidores das terras alodiais que ocupavam”.

Entretanto, a

“apropriação privada do domínio público rapidamente converteu o povo americano de uma condição de propriedade livre para uma de democracia assalariada.”

E ainda levantou a questão central para a qual as sociedades modernas ainda não tinham encontrado a resposta:

“Como podem os assalariados obter uma quantia ou um grau de independência econômica análogo àquele com o qual o democrata pioneiro podia contar?”

Os programas de bem-estar social, argumentou Croly — seguro contra desemprego, doença e velhice, medidas que garantam condições de trabalho seguras e saudáveis, um salário mínimo, etc. – representaram, na melhor das hipóteses, uma resposta muito parcial.

Os conservadores objetaram que tais reformas simplesmente promoveriam um “senso de dependência”, e essa crítica, admitiu Croly, tinha “muita força”.

A própria solução dos conservadores, no entanto – “que a única esperança do assalariado é tornar-se proprietário” – era tão profundamente inconsistente com toda a tendência do industrialismo moderno que era difícil tratá-la “com paciência e cortesia”.

A alegação de que a poupança e a abnegação permitiriam que os trabalhadores se tornassem proprietários não era totalmente convincente.

Para que os assalariados se tornem homens livres” – e “a tarefa mais importante da organização social democrática moderna” era torná-los homens livres – seria necessário algo mais do que meras exortações para trabalhar mais e gastar menos.

O fato de a maioria dos formadores de opinião conservadores ter se contentado com tais exortações diz muito sobre a falência intelectual do conservadorismo no século XX.

A falência da esquerda, por outro lado, revela-se na recusa dos esquerdistas em admitir a validade das objeções conservadoras ao Estado de bem-estar (welfare State).


Christopher Lasch é Professor de História na Universidade de Rochester. Ele também é autor da obra The Culture of Narcissism and The Minimal Self.

First Things, todos os direitos reservados. Traduzido e publicado com permissão. Link para o texto original:  Conservatism agains Itself

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