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Bonum est diffusivum sui

O trabalho visto sob a ótica da atividade

Ao longo de sua história, o homem tem travado uma constante luta para assegurar sua sobrevivência, entender e dominar seu ambiente, bem como superar aquele que talvez seja, de todos, o seu maior desafio: conhecer suas capacidades para poder realizar-se enquanto ser.

Diversas ciências e escolas de pensamento deram suas contribuições para vencer este desafio. A Ciência Econômica, pelo viés da escassez e racional utilização de recursos, tem um bom posicionamento para esta luta.

Para Chacon e Franco Júnior (1989, p. 21), “em certo sentido, a História Econômica é a história do domínio do homem sobre a natureza e de sua capacidade de utilizá-la em proveito próprio.” É um conceito que deixa claro que a verdadeira luta do homem sobre a terra não é contra a natureza, mas em favor dela considerando aquilo que de mais elevado há no trabalho, o desejo de desenvolver-se enquanto pessoa, de realizar-se mediante o trabalho. É deste significado que tiramos a mais legítima motivação para o trabalho e o valor da obra que realizamos. Quando conscientes deste agir elevado, não nos limitamos a “quebrar pedras, mas a edificar grandes obras”.

Os gregos clássicos perceberam que este conhecimento de si mesmo não podia limitar-se à sondagem e contemplação; era algo tão vital para a realização do homem que deveria ser atualizado em sua vida corrente mediante a sua atividade. No livro I da Ética a Nicômaco, Aristóteles imortaliza este princípio de racionalidade (1996, p. 125): “Se há um fim visado em tudo o que fazemos, este fim é o bem atingível pela atividade.” 

O trabalho, visto sob a ótica da atividade, pode, portanto, ser considerado um legítimo fio condutor ao longo da história para explicar a controvertida e fascinante saga do homem na busca de si mesmo. É a saga imortalizada por Sócrates ao defrontar-se com o dintel do oráculo de Delfos: “Homem, conhece-te a ti mesmo”, que gerou uma inquietação profunda em sua alma e o fez um dos mais sábios homens ao concluir com excepcional bom senso e humildade: “Só sei que nada sei.”

O domínio do homem sobre a natureza e o conhecimento de si mesmo são temas conexos que têm no trabalho a atividade que melhor os integra. É uma atividade tipicamente humana, já que nenhum outro ser é capaz de trabalho no sentido de criar, prover, e relacionar-se em sociedade. O homem, ao trabalhar, não só provê o seu sustento, como atualiza sua capacidade natural de desenvolver-se e relacionar-se, transmitindo cultura e abrindo horizontes de realização.

Nas palavras de Stork e Echevarría (2001, p. 267), “O trabalho é a mais importante fonte de riqueza do homem, em sua origem é o brotar inédito da inteligência.” Inteligência que não lhe foi dada em plenitude, mas em forma de potência para que livremente a desenvolvesse segundo seus interesses e escolhas.

A busca de si mesmo e da satisfação de suas necessidades permitiram, ao longo da história, uma sucessão de fases e revoluções que marcariam a evolução de toda a história humana. A primeira fase a situar esta evolução é a dos povos coletores, que diante de uma exuberante natureza se organizavam para colher e transformar o alimento in natura.

Mesmo em condições primitivas, o homem, ao extrair da natureza o seu alimento através do trabalho, dava à coleta uma dimensão propriamente humana. Diferente das demais espécies animais, o homem trata o seu alimento, condicionando-o ao seu consumo e armazenamento. Embora incipiente, este agir denota o uso de uma razão socioeconômica que virá a transformar toda a sua história.

Nesta fase a organização social consistia basicamente na formação de bandos nômades que se deslocavam constantemente em busca de melhores campos de coleta e abrigo. Com o domínio do fogo, de algumas técnicas agrícolas, de alguns instrumentos de trabalho, e da domesticação de alguns animais, o homem tem a possibilidade de fixar-se num território para produzir seu próprio alimento libertando-se da necessidade de viver em constante movimento, passando assim de nômade a sedentário.

Esta fixação à terra lhe permite a geração de excedentes que poderão ser trocados e reinvestidos na produção, aumentando em muito a sua capacidade produtiva. Este salto qualitativo ficou conhecido como Revolução Agrícola, marcando o surgimento da instituição da propriedade, da divisão do trabalho e uma nova forma de organizar tanto a produção como a vida em sociedade.

A partir desta fase o homem começa a diferenciar-se entre os seus iguais não só pelas suas aptidões físicas, mas também pelo seu engenho em aproveitar as oportunidades que tanto o ambiente como as suas disposições interiores oferecem. Deixa de meramente servir-se da natureza para transformá-la em seu proveito, adequando o ambiente ao que melhor corresponde às suas aspirações racionais. O homem passa a transformar seu espaço e ser por ele transformado numa espiral crescente de cultura social e econômica.

A compreensão de que a pessoa humana está instalada no espaço, o transforma e é por este transformado, é fundamental para o próprio conceito de pessoa, conforme afirmam STORK e ECHEVARRIA, (2001, p. 83-84):

O mundo exterior no qual o homem vive é físico, material, e considerado em seu conjunto recebe o nome de natureza. A pessoa humana não é concebível fora dessa instalação material: sua vida se desenvolve nesse meio e através dele. O estar situado do homem dentro da natureza é algo radical e determinante para seu existir e seu modo de ser, pois surge daí o como faz, atua, vive e se projeta.”

O meio externo é um agente importante de influência sobre o homem, mas seria uma simplificação muito grande imaginar que este meio determine o seu agir. A sua capacidade de adaptação ao meio é muito mais a atualização de uma potência interior que o move na busca da satisfação almejada. Por isso o homem aceita o caráter penoso e rotineiro do trabalho como preço da identidade que se revela e que se constrói, satisfazendo aspirações atuais e gerando outras novas e mais elevadas. Quando hoje, o homem limita o trabalho à sua subsistência, está renunciando a esta evolução retroagindo a uma condição primitiva superada historicamente há milhares de anos.

Pelo trabalho o homem toma consciência de suas capacidades e potências, e ao atualizá-las faz-se mais pleno de si. Esta atualização e apropriação do seu desenvolvimento o diferenciam das demais criaturas e o faz perceber-se capaz de mais. Esta percepção é vital não só ao homem primitivo para submeter a natureza de que dispõe, mas também ao homem de todas as épocas, para submeter-se à própria natureza de que provém. Romper esta ordem é submeter-se às próprias criaturas, aos seus artifícios, tornando-se débil e sujeito às consequências desta desordem.

A consciência do que é ou pode vir a ser não nasce completa, e diferencia-se dentro da própria espécie, fazendo com que alguns percebam a sua própria natureza e a natureza que o cerca de forma diferente dos outros. O processo de separação e submissão do homem às condições naturais é crescente impondo-lhe cada vez maiores desafios. Ele percebe que o bem não está disponível e que precisa ser conquistado mediante esforço e determinação. Para extrair o que deseja, precisa conhecer e cultivar para progredir. Cada vez que esse processo ocorre, o conhecimento se amplia, e a sua própria consciência se desenvolve.

Este processo não se desenvolve de forma isolada ou individualizada. Pela sua condição de ser social busca ao semelhante para ver-se a si mesmo, para comunicar-lhe suas aspirações e conquistas. Conforme Mondin (1980, p. 159): “A sociabilidade é a propensão do homem para viver junto com os outros e comunicar-se com eles, torná-los participantes das próprias experiências e dos próprios desejos, conviver com eles as mesmas emoções e os mesmos bens.”

Esta necessidade de ver-se no outro, de sociabilizar-se, de conquistar reconhecimento exige do homem uma obra bem-feita, algo digno e de que possa orgulhar-se. É algo intrínseco à sua própria natureza fazer o bem e comunicar este bem, para que, sendo comum a outros, beneficie a todos. Historicamente, este viver em sociedade e a consequente transmissão de usos, costumes, técnicas e aspirações, não só permitiu um impulso extraordinário ao seu desenvolvimento pessoal como permitiu uma ainda mais radical transformação econômica e social.

A evolução das formas de propriedade e das formas de organização social, sobretudo, da família; o crescimento demográfico e dos meios de comunicação e transporte; a evolução das técnicas de produção e o domínio da escrita, fizeram surgir o comércio de longa distancia, facilitado em muito pelo surgimento da moeda. Os bens puderam ser trocados por um divisor único, e com a acumulação de excedentes o comércio floresceu, fazendo florescer também as cidades e os Estados. Com a expansão do comércio o homem avançou ainda mais na descoberta de si mesmo, passou a ser tratado como indivíduo, fenômeno que se verificou especialmente em duas sociedades tipicamente comerciais: a judaica e a grega.

As atividades comerciais e a maior integração de culturas lançaram as condições necessárias para que o homem pudesse amadurecer, descobrisse sua individualidade e se libertasse de sua submissão à natureza, extrapolando a condição de individuo para ver-se como pessoa, deixou de ser apenas parte de uma natureza para transformar-se numa síntese dela.

Sigamos com nossa evolução histórica. Com o debilitamento do império romano e o seu sistema de autoridade, as atividades comerciais contraíram-se e cada comunidade voltou-se para si mesma, ganhando importância os grandes latifúndios que passaram a produzir para sua própria subsistência. O sistema de autoridade geopolítica se alterou e surgiu o feudalismo, onde o senhor do latifúndio passou a controlar a condição social e econômica daqueles que a ele se subordinavam.

Surgiu nesta época de forma marginal, mas com crescente importância, a figura do artesão, que fora da propriedade feudal e dentro das cidades, desenvolveu um trabalho artesanal que contou, sobretudo, com a sua habilidade manual e um mínimo de técnica para desenvolver-se. Com o passar do tempo estes artífices agruparam-se, formando mais tarde as corporações e, junto com os comerciantes locais, os futuros burgueses que iriam se opor à organização feudal e aos seus senhores.

A partir do século XV houve uma grande expansão do comércio a partir da Europa, dando origem à formação do mundo moderno. Com os avanços científicos nos equipamentos de navegação, viagens mais longas são empreendidas e novas civilizações são contatadas, havendo um florescimento econômico e social. A tendência pela unidade nacional favorecida pela aspiração e ascensão da classe burguesa comercial transformou mais uma vez a organização das formas de trabalho.

Com o êxodo rural promovido pela mecanização agrícola, formaram-se aglomerados ao redor das grandes cidades disponibilizando mão-de-obra abundante e barata. A crescente demanda por produtos manufaturados elevou seus preços estimulando novas inversões e uma produção em escala maior. Surgiram as fábricas, e como a produtividade era baixa procurou-se substituir esta mão-de-obra por máquinas, estimulando o desenvolvimento tecnológico, em especial, na época, as máquinas movidas a vapor.

Mais máquinas, mais produção, menores preços, mais demanda, menos camponeses, mais operários, surgia o capitalismo. Todo um sistema baseado na lógica da produção de excedentes e formação de lucros remunerando o capital. Esta fase ficou conhecida como a da Revolução Industrial, que marcada por grandes progressos materiais, subverteu, em grande parte, o sentido do trabalho como meio de desenvolvimento e realização pessoal.

Esta apreciação histórica do trabalho, mesmo que rápida, permite constatar a coexistência de um sistema interno de escolha com um externo de pressão em que cada homem independente da época ou ambiente em que viva deve posicionar-se. É da habilidade em posicionar-se entre as exigências de sua natureza interior e as do meio externo que o cerca, que irá depender sua satisfação enquanto ser digno de escolhas.

Este dilema, este questionar-se quanto ao sentido do que faz, por que faz e para quem faz, é algo específico do ser humano, e mais do que uma fraqueza é algo que o caracteriza enquanto ser: “O sentido da vida não pode ser, nunca, de per si, expressão do que porventura o homem tenha de doentio; é antes e sem mais, para falarmos com propriedade, expressão do ser humano, expressão precisamente do que de mais humano há no homem.” (FRANKL, 1989, p. 56).

Esta busca de sentido como algo próprio do homem irá provocar uma nova e igualmente profunda revolução na história humana, onde mais uma vez tanto o social como o econômico irão se sujeitar ao específico humano na busca da sua dignidade enquanto ser. Mas isto aprofundaremos nos próximos artigos.


REFERÊNCIAS:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

CHACON, P. P.; JUNIOR, H. F. História econômica geral. 1. ed. São Paulo: Atlas, 1989.

FRANKL, V. E. Psicoterapia e sentido da vida. 3. ed. São Paulo: Quadrante, 1989.

MONDIN, B. O homem, quem é ele? 10. ed. São Paulo: Paulus, 1980.

STORK, R. Y.; ECHEVARRIA, J. A. Fundamentos de antropologia. 5. ed. Pamplona: Eunsa, 2001.

Paulo Luccas

Economista, especialista em Estratégia Econômica de Empresas pela FAE e em Desenvolvimento Pessoal pela Univesidad de La Sabana.

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