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Bonum est diffusivum sui

O trabalho como um bem solidário

O trabalho como um bem solidário

É bem provável que daqui a alguns anos possamos falar da Covid-19 como um evento tão marcante quanto foi o 11 de setembro em Nova York ou a queda do muro de Berlim em 1989: eventos que tiveram o poder de influenciar grandes decisões tanto em âmbito mundial como pessoal. O ano de 2020 também será considerado como um destes anos que não só marcaram a história da humanidade como representam um ponto de inflexão nas tendências da normalidade.

Ainda não temos uma noção exata das consequências e dos efeitos da atual crise. O que sabemos é que não estamos diante de um evento localizado com repercussões limitadas, mas de algo que irá impactar a forma como vivemos em sociedade. É nítida a percepção de que há uma conjunção de fatores que vai muito além de uma mera crise sanitária, ou cuja solução dependa exclusivamente de uma vacina.

Talvez fosse mais apropriado considerar que a pandemia foi apenas o agente deflagrador de uma complexa realidade que há muitos anos já se mostrava em gestação e que agora se precipita sobre pessoas e países, exigindo respostas e uma postura de responsabilidade e gestão.

Num plano imediato, todas as nossas atenções se voltam para os laboratórios de pesquisa na esperança de que as vacinas produzidas tragam a cura para os estragos que o inimigo comum causou e ainda causa à comunidade humana. Dentro desta expectativa, tudo parece se resumir a uma questão de tempo para recuperar a economia, os empregos, a confiança do consumidor, as viagens de negócio e de lazer, enfim, a normalidade. Mesmo o desequilíbrio fiscal em alguns países é tratado por muitos como apenas mais um dos efeitos conjunturais da crise viral, um endividamento necessário para prevenir um mal maior, e que será pago tão logo o mercado volte a girar.

Embora a resposta no plano imediato seja necessária, especialmente em relação ao sistema de saúde pública e à assistência financeira aos mais vulneráveis, o nosso olhar responsável não pode se limitar ao curto prazo e às ações de contingência, é importante diagnosticar os demais fatores presentes e que não serão resolvidos pela ciência sanitária. Se a gestão já era um desafio para muitos países e pessoas neste mundo cada dia mais dinâmico e instável, esta crise veio demonstrar que mesmo os mais desenvolvidos tiveram dificuldades de gestão, e deverão se preparar melhor para os desafios que ainda estão por vir. 

O grande risco sempre presente em toda crise é prender-se às aparências sem procurar compreender as causas, sem reconhecer que toda crise, embora custe, pode ser benéfica se nela reconhecemos uma trajetória de perdas e descaminhos que, se não identificados no devido tempo, pode ser fatal. Apesar das perdas de vidas e recursos, a pandemia pode nos oferecer uma boa oportunidade para refletir sobre a necessidade de considerar a importância dos seres considerados invisíveis, e o risco de relegá-los à própria sorte em nossas periferias. Se o reconhecimento da existência de um ser submicroscópico acelular já é necessário, ainda mais importante é o reconhecimento da dignidade das pessoas que, feitas à nossa semelhança, convivem ao nosso lado.   

Talvez seja esta uma das principais revelações que esta crise veio nos proporcionar, a de que vivemos em comunidade, que somos interdependentes, e que toda existência tem impacto sobre a vida do outro. Para além das medidas de assepsia necessárias para evitar o contágio da doença, precisamos tomar consciência de que a vida em sociedade exige convivência e inclusão. Poderíamos dizer que, a partir desta experiência, reconhecemos que toda vida importa e, como tal, nenhuma vida pode ser ignorada sob pena de desestabilizar o tênue equilíbrio que garante nossa convivência.

Fica evidente, portanto, que o nosso desafio não é de ordem temporal, e que as perguntas que devemos nos fazer não podem se restringir à preocupação da eficácia ou não da vacina ou de quando voltaremos à normalidade. O que deve nos ocupar é o desafio da essencialidade, do modo como iremos enfrentar os desafios que, por serem de ordem comum, exigem resposta de comunidade. Não será um desafio trivial, pois nossa sociedade se encontra dividida por correntes que, embora distintas, cometem o mesmo erro ao desprezar o que de mais digno há numa pessoa: a sua condição de ser pessoa.

Tirar da pessoa a sua aspiração ao crescimento e a sua possibilidade de realização é negar-lhe aquilo que de mais essencial tem em seu interior, é faze-la vulnerável às profundas e crescentes ameaças que se apresentam no mundo moderno. Como ser vivo, toda pessoa exige desenvolver-se para tornar-se aquilo que tem potencial de realizar, não só em si mesma, mas no ambiente e comunidade onde vive. Crescimento e envolvimento são movimentos de um mesmo ciclo natural que, se devidamente apropriados, formam e realizam o ser. Ou resgatamos aqueles que estão prostrados nas periferias e padecem com a exclusão, ou padeceremos todos de um mesmo contágio que máscara alguma poderá proteger.

Para engajar e envolver os excluídos, podemos num primeiro momento mitigar a sua miséria com programas assistenciais, mas sem perder a consciência do caráter temporal desta assistência, projetando no mesmo ato a perspectiva do resgate daquilo que é essencial. Se é de nossa responsabilidade assistir ao necessitado, também o é tirá-lo de sua prostração para incluí-lo na sociedade através do trabalho. Em vez de lançar o auxílio, temos que estender a mão, ou seja, aproximar-nos em vez de afastar-nos. Diferente do contágio que se dá mesmo de forma passiva, o envolvimento exige consciência ativa, solidariedade.

O trabalho é a atividade que, por excelência, atualiza as competências da pessoa e a faz digna de seu destino. É um direito e também um dever, um bem constitutivo que não permite renúncia da própria parte, nem supressão por parte de outros. É um dom a ser desenvolvido para que possa render os frutos esperados. Tem um caráter imanente que propicia alegria ao constatar a transformação daquele que o realiza com consciência, e por isso se faz irrenunciável. Tem um valor extrínseco, ao prover recursos para si e para os que dele dependem, intrínseco, ao promover o próprio desenvolvimento pessoal e profissional, e também transcendente, ao elevar a pessoa enquanto pessoa.

Assim visto e considerado o trabalho, podemos admitir como responsabilidade do Estado assistir aos necessitados em momentos de crise para evitar a depressão econômica e a desordem social, mas não faria sentido imputar ao mesmo Estado a responsabilidade da geração de empregos por meio de sua ação direta. Erraria o Estado ao agir como empregador, assumindo para si o compromisso de prover aquilo que compete ao mercado e a cada pessoa em particular. O que deve é proporcionar condições de desenvolvimento através de políticas que, orientadas ao bem comum, proporcionem um ambiente justo e favorável para todos os cidadãos.

A responsabilidade do Estado exige ocupar o espaço institucional, jurídico e político que lhe compete, assegurando as garantias das liberdades individuais e da propriedade, bem como dos serviços públicos que lhe são confiados. A manutenção da estabilidade econômica, política e social favorece a iniciativa privada e a consequente geração de emprego, estimulando a geração de renda e o melhor uso dos recursos públicos.

Assim como a pessoa humana, também o Estado é chamado a realizar trabalho no sentido próprio da atividade, gerando frutos que beneficiam a comunidade e lhe dão identidade.

Se esta crise nos trouxer a consciência e o reconhecimento da interdependência entre todos os seres na composição de um mesmo organismo vivo, talvez os nossos esforços sejam suficientes não só para superá-la, mas para amadurecer com ela, pois onde há solidariedade, há vida saudável.

Paulo Luccas

Economista, especialista em Estratégia Econômica de Empresas pela FAE e em Desenvolvimento Pessoal pela Univesidad de La Sabana.

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